9 de outubro de 2008

STANLEY JORDAN - A Evolução do Tapping


Artigo originalmente escrito por Ben Ami Scopinho para o site Whiplash, gentilmente cedido por Bem Ami para publicação neste blog.

Ben Ami Scopinho

“Ops!?! Peraí!!! O que um guitarrista mundialmente conhecido por tocar jazz e pop como Stanley Jordan está fazendo num site de rock como o Whiplash!?!?”

Ok... Esta é a provável e compreensível pergunta que muitos leitores farão e até concordo em parte que não tem muito a ver. Porém, o fato relevante é que este músico negro norte-americano vem causando espanto há mais de 20 anos pela sua maneira apurada e bastante pessoal de tocar guitarra, com as duas mãos no braço do instrumento. As técnicas que Stanley Jordan utiliza são chamadas “tapping”, “hammer-on” e “pull-off”, e foi fazendo uso destas mesmas técnicas que Eddie Van Halen, tocando com velocidade e precisão, se consagrou como um dos guitarristas modernos mais influentes do mundo.

E como a guitarra é o carro-chefe do rock´n´roll e heavy metal, vale a pena conhecer um pouco mais sobre Stanley Jordan. Quem sabe daqui a algum tempo não aparece um guitarrista que se torne famoso no mundo do rock´n´roll por seguir o estilo de Jordan em algumas passagens de suas composições?
A técnica deste guitarrista norte-americano o tornou conhecido pelo fato de permitir que ele toque sua guitarra de uma forma parecida com o piano, realizando ao mesmo tempo o solo e o acompanhamento da música. Esta técnica é uma espécie de evolução do “tapping” (em português, algo como “tamborilar”): ao invés de segurar as cordas com uma das mãos no braço do instrumento e tocá-las com a outra, geralmente mais próxima da ponte como os guitarristas convencionais, Jordan bate com os dedos nas casas, extraindo o som e selecionando as notas com o mesmo movimento.

Sendo assim, ele consegue tocar duas linhas melódicas independentes na guitarra ou, se for o caso, em duas guitarras ao mesmo tempo. A harmonia, os baixos e a melodia de uma canção chegam aos nossos ouvidos simultaneamente, tocados por apenas um músico.

Na realidade, esta técnica estava por aí há tempos, executadas por músicos como o já citado Edward Van Halen, além de Jimmy Webster, Lenny Breau e Emmet Chapman. Mas muitos consideram que foi Stanley Jordan quem a desenvolveu de maneira independente e elevando esta arte a um nível sem precedentes, expressando assim sua visão musical de maneira um tanto original e sendo considerado hoje como o primeiro “Toque Virtuoso”.

Stanley Jordan nasceu em Chicago em 1959 e seu primeiro instrumento foi justamente o piano. Mas aos 11 anos pegou uma guitarra e foi uma paixão tão grande que não a largou mais. Passou alguns bons anos estudando e aperfeiçoando esta técnica particular até se mudar para Nova York na virada da década de 70 para a de 80 e, mesmo tendo ganhado uma bolsa para estudar na universidade de Princeton, optou por ser um músico de rua, tocando ainda na Filadélfia ou nas cidades do meio-oeste e sul dos EUA.

É claro que tanto talento obviamente não passou muito tempo na obscuridade. Seu nome corria de boca em boca no meio artístico e logo a seguir passou a tocar com os jazzistas Benny Carter e Dizzy Gillespie, e em 1982 lançou seu primeiro disco de forma independente. Mas Jordan passou a ser realmente conhecido a partir de 1985 com o lançamento de “Magic Touch”, seu primeiro registro pela Blue Note, um dos nomes mais célebres em se tratando de gravadoras de jazz. Este “Magic Touch” causou tanto impacto que ficou por 51 semanas nas paradas da Billboard.

Daí em diante, discos como “Flying Home”, “Cornucopia”, “Stolen Moments” e “Bolero” - sempre misturando o jazz com o pop - não deixavam nenhuma dúvida que o guitarrista estava em pleno crescimento musical, explícitas em composições que exalam paixão, sensibilidade e humor, nunca permitindo que sua famosa técnica oprimisse a música.

Digna é a atitude verdadeiramente artística de Stanley Jordan que, apesar de ter sido introduzido e reconhecido no mercado mundial como músico de jazz, vem procurando outros rumos para sua música e se afastando desde os anos 90 do universo dos produtores, negócios milionários e empresariais, acabando por abandonar Nova York e se retirar para as montanhas do Arizona.

Um ponto importante na vida deste músico foi uma dor em seu pé, que o fez ter contato com a medicina alternativa. “Eu comecei a ver uma conexão entre a paralisia em meu pé e a paralisia em minha música. Em ambos os casos, eu estava forçando muito, apressando muito, tentando fazer tudo ao mesmo tempo. Eu tive que aprender ser mais paciente e realizar algumas coisas em seu devido momento, como tocar uma canção no tempo correto. Se você o apressar você destrói a música”, pondera Stanley Jordan.

A forte impressão que teve com a prática deste tipo de medicina e suas opções de prevenção e cura culminaram na decisão de se matricular na universidade do estado do Arizona, onde está estudando terapia musical e trabalhando com doentes terminais, isso até mesmo nos hospitais dos países por onde excursiona.
Em 1986 Jordan veio pela primeira vez ao Brasil para tocar no Free Jazz Festival e, a partir daí, sua presença em território verde-amarelo vem se tornando freqüente. Tanto que em sua última estada por aqui no mês passado (outubro/2005), gravou num estúdio carioca e com músicos brasileiros vários clássicos da bossa nova, como “Corcovado”, “Brigas nunca mais”, “Wave” e “Insensatez”, todas de Tom Jobim, além de “Partido Alto”, do Azymuth. O objetivo destas gravações é apresentá-las à gravadora Blue Note e servir de base para o novo CD do músico, com previsão de lançamento para 2006.

A paixão pela arte é clara, independente do caminho que este músico venha a trilhar. Sua ruptura nos anos 90 com a indústria da música, seus estudos da bossa nova, música hindu e até mesmo suas influências do Tai Chi Chuan ao exercitar sua técnica, mostram que Stanley Jordan quer apresentar sua música não apenas como entretenimento, mas também como fonte de inspiração e de saúde. E isso são bons exemplos a serem seguidos.




Stanley Jordan plays "Stairway to Heaven"

Stanley Jordan plays "Autumn Leaves"

Stanley Jordan plays "Willow Weep for Me"

Stanley Jordan plays "Eleanor Rigby"

Stanley Jordan plays "Flying Home"


Stanley Jordan - The Sound of Silence

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